Como testemunhar o que não vimos e acreditar em nossa própria ressurreição?

20/04/2017

João 20.19-25 e Atos 2.14a.22-32

Estimada Comunidade:

Como ouvimos, Tomé, que não presenciou a aparição do ressuscitado no domingo da Páscoa, não acredita no testemunho dos discípulos. Ele quer ver para crer. Se não puder ver pessoalmente o sinal dos cravos nas mãos de Jesus, se não tocar ali com os dedos e se não puser a sua mão no lado dele aberto com a lança, não vai acreditar (Jo 20.25).

Eu penso que sentimos uma admiração oculta por ele, porque de alguma maneira ele teve coragem de expressar perguntas e dúvidas que estão latentes em nosso próprio interior. Como é possível acreditar na ressurreição de Jesus? Como é possível acreditar em tal acontecimento singular, sem paralelos, sem ter em mãos algum sinal concreto, alguma garantia, ao menos algum indício plausível? Como testemunhar o que não vimos? Como acreditar em nossa própria ressurreição? Como construir nossa vida sobre essa esperança, para a qual não se tem nenhuma garantia?

Como testemunhar a ressurreição de Jesus e a nossa ressurreição em meio a um contexto marcado pelo sofrimento e pela morte prematura, sem que isso soe como fuga da realidade, consolo barato ou mecanismo de despressurização social?

Proclamar a ressurreição significa afirmar que Deus tem um plano de salvação para este mundo e para cada pessoa em particular. Ele deseja acima de tudo animar, e não abater; renovar a esperança, e não causar desespero; promover vida, e não matar ou fazer vegetar. Esse plano, manifestado aos profetas antigos, foi definitivamente revelado em Jesus de Nazaré. Não há limites para o seu projeto. Nada é capaz de interrompê-lo ou ameaçá-lo. Assim como esteve presente na vida de Jesus, animando-o a combater os poderes da morte que se manifestam em meio à vida, Deus também esteve presente em sua morte, libertando-o dos grilhões da grande inimiga e devolvendo-o à vida.

Proclamar a ressurreição não significa encobrir, reprimir ou desconsiderar a realidade de sofrimento e a maldade humana, mas trazê-la à tona e aprender a encará-la de frente. Ao proclamar o Cristo ressuscitado, Pedro resgata a memória histórica de Jesus e aponta para as marcas da violência de que foi vítima, como a dizer que a ressurreição não apaga a memória da dor e do sofrimento.

Desta forma, proclamar a ressurreição significa engajar-se na luta contra as manifestações de morte que invadem antecipadamente o espaço da vida. Os milagres e prodígios que Jesus realizou pelo poder de Deus são sinais da inconformidade divina frente à situação miserável em que vivem suas criaturas, desfiguradas pela doença, pela fome, pela solidão, pela culpa.

Proclamar a ressurreição significa dizer que a partir da morte e ressurreição de Cristo, sabemos que nada mais nos pode separar do amor de Deus. Na ressurreição de Jesus, Deus se manifestou como Senhor sobre a vida e a morte. Por mais angústia e medo que a experiência da morte nos possa causar, sabemos que do outro lado não nos espera o vazio ou o desconhecido, mas os braços abertos de Deus, prontos a acolher-nos em seu regaço e a presentear-nos com vida plena e duradoura.

Proclamar a ressurreição é um chamado a todos nós para enxergar a vida e a morte a partir da perspectiva de Deus. A fé em Deus é capaz de inverter a equação: ver para crer em crer para ver o que Deus pode fazer em nome de seu amor irrenunciável em favor da vida — e vida plena — de suas criaturas.
Nesse sentido – para concluir essa prédica - gostaria de convidar vocês a um gesto litúrgico. A ressurreição de Jesus quer vir ao encontro de nossa própria situação de vida. Deus quer falar para cada um de nós conforme lemos nos Salmo 16.8-11 que diz o seguinte:

Ler Atos 2.25-28

O Batismo foi o momento em que Deus disse um grande SIM para a nossa vida. Por isso, a presença constante da pia batismal nas nossas igrejas é um chamado para que não nos esqueçamos disso: Deus já disse um SIM para a minha vida. No dia de nosso batismo ouvimos as palavras bíblicas: Não tenha medo, porque eu sou o teu Deus, eu te salvarei, chamei-te pelo teu nome, tu és meu. Quando você travessar águas profundas, eu estarei do seu lado e você não se afogará. Quando passares pelo meio do fogo, as chamas não te queimarão. (Is 43.1-2).

A partir do nosso Batismo, quero convidar vocês para que – durante o próximo hino – venhamos até a pia batismal, molhemos as nossas mãos e o nosso rosto e sintamos que a partir da ressurreição de Cristo – Deus reafirma para nós mais uma vez o seu SIM e por isso, apesar das nossas dificuldades, dos sofrimentos desse mundo, das injustiças e da maldade humana, nada disso nos vai conseguir separar do grande amor de Deus.

E ao mesmo tempo em que sentimos mais uma vez o SIM de Deus por nós, manifestemos também o nosso SIM para Deus de lutar nesse mundo contra tudo aquilo que causa sofrimento, angústia, injustiça, abandono e morte. Dizer SIM para Deus significa engajar-se por um mundo mais justo e solidário.
Amém.

Hino:
Tu, Vieste À Margem
1. Tu, vieste à margem do lago,/ não buscaste nem sábios nem ricos,/ somente queres que eu te siga.

Refrão: Senhor, Tu me olhaste nos olhos/ e, sorrindo, disseste meu nome./ Lá na praia, eu deixei o meu barco,/ e, contigo, vou buscar outro mar.

2. Tu, sabes tudo que tenho;/ no meu barco não há ouro nem prata./ Somente redes e o trabalho.

3. Tu necessitas de mim,/ do meu cansaço que a outros descanse./ Amor que queira ser amado.

4. Tu, pescador de outros lagos,/ ânsia eterna de pessoas que esperam./ Meu bom amigo, que assim me chamas.

Durante o hino pede-se que as pessoas venham até a pia batismal e molhem sua mão e seu rosto, sentindo assim a reafirmação do SIM de Deus dado no dia de seu Batismo.
Se o grupo for grande pode-se ter dois ou mais espaços com água para realizar o gesto.
O hino pode ser repetido – e entre uma repetição e outra – pode-se ler o texto de 1Pedro 1.3-9 e Isaías 43.1-2)

Subsídios litúrgicos
Hinos: Hinos do povo de Deus: 66; 70. O povo canta: 16, 30, 32, 64, 158.
Intróito: Se a nossa mensagem é que Cristo ressuscitou, como é que alguns de vocês dizem que os mortos não vão ressuscitar? (l Co 15.12.)

Confissão de pecados: Amado Deus: Agradecernos-te pela mensagem gloriosa da Páscoa, que há alguns dias tu nos fizeste lembrar. Em teu Filho Jesus Cristo tu te mostraste como um Deus comprometido com a vida. Apesar disso. muitas vezes nos deixamos vencer pela frustração e pelo cansaço. Queremos provas e garantias das tuas promessas. Queremos ver para crer, ao invés de crer para ver. O passo da confiança ilimitada em teu amparo e proteção nos parece arriscado demais. Por isso rompemos a comunhão contigo, tornando-nos pessoas tristes, desiludidas, solitárias e desencorajadas. Perdoa, Senhor, o nosso pecado. Restaura-nos a alegria da salvação. Renova nossa fé e esperança, por amor àquilo que teu Filho realizou em nosso favor. Amém.

Palavra de graça: Por causa da sua grande misericórdia, Deus nos deu uma nova vida pela ressurreição de Jesus Cristo. Por isso nosso coração está cheio de uma esperança viva. (l Pe 1.3.)

Oração de coleta: Amado Deus: Envia teu Espírito aos nossos corações, para que ele nos console na aflição, nos oriente em nosso caminho, nos ensine a crer em tuas promessas e nos fortaleça para viver segundo a nossa esperança. Amém.

Fonte:
Verner Hoefelmann
Proclamar Libertação - Volume: XXIV
 


Autor(a): Verner Hoefelmann e Nilton Giese
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: Belo Horizonte (MG)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Área: Celebração / Nível: Celebração - Ano Eclesiástico / Subnível: Celebração - Ano Eclesiástico - Ciclo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: Atos / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 14 / Versículo Final: 32
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 41999
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Há algo muito vivo, atuante, efetivo e poderoso na fé, a ponto de não ser possível que ela cesse de praticar o bem. Ela também não pergunta se há boas ações a fazer e, sim, antes que surja a pergunta, ela já as realizou e sempre está a realizar.
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